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Golpe não se esquece…e, pela primeira vez, não se perdoa

Uma crônica sobre tempo, identidade e política –

A escritora Nathallia Protazio disse certa vez que a essência da crônica contemporânea é “capturar o núcleo do agora para que no futuro seja possível uma compreensão”. E eu, admirador de sua escrita, frequentador de seus textos, subscrevo respeitosamente. Também concordo que é pelo olhar poético e pela reflexão filosófica que a crônica se faz. Assim, tentando perceber a passagem do tempo ao meu redor e sobre mim, vou construindo conversas polifônicas por meio de nosso milenar alfabeto latino.

Outro dia, observando livros dispostos numa livraria de Salvador, o Por que o tempo voa – uma investigação sobretudo científica, de Alan Burdick, me encontrou. Como me pareceu, à primeira vista, algo diferente e fora do meu habitual circuito de leitura, folheei as páginas com grande curiosidade. No momento em que ergui a cabeça, reparei no entra e sai das pessoas com seus livros recém-adquiridos. Um questionamento inesperado saltou das páginas do livro para a minha mente: “Como é que eu mudo e continuo sendo continuamente eu?”.

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Mas logo passei da incompreensão ao riso, porque Burdick compartilhou em seguida um breve diálogo de uma peça cômica grega anterior a Zenão de Eleia: “Um homem se acerca de outro para cobrar um dinheiro que lhe emprestara. O devedor diz: ‘Oh, mas você não o emprestou a mim! Não sou mais a mesma pessoa que era então […]’. Diante disso, o primeiro homem esbofeteia o segundo no rosto. ‘Por que você fez isso?’, pergunta o segundo homem, ao que o primeiro responde: ‘Quem, eu?’”.

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Passaram-se os dias e eu continuo às voltas sobre passado, presente e futuro. Com gestos incertos, sigo tentando capturar o núcleo do agora, mesmo consciente de que o tempo é escorregadio. Se eu tento, por exemplo, acompanhar as tantas coisas que acontecem na política nacional há pouquíssimo tempo, o mais provável é que eu me assuste e me pergunte se ainda estou no presente ou se fui teletransportado para uma época em que a truculência e a tirania ditavam a “normalidade”.

Eu ainda estou aqui, afirmo para me materializar na lucidez do presente. Então penso que seja razoável que a solidariedade prevaleça sobre o egoísmo. Pouco sei, porém, sobre o universo paralelo em que habitam alguns conterrâneos imbuídos, ao que parece, de uma visão extraterrestre.

No mundo em que habito, sou capaz de discernir a bandeira do Brasil de uma bandeira estrangeira. Mesmo um pouco tonto pela rotação do planeta, tenho noção de que a esfericidade da Terra é conhecida há milênios. É pela História que tenho alguma noção das rupturas institucionais decorrentes de golpes militares no meu país e arredores e das suas várias tentativas falhas e esdrúxulas.

Talvez por tudo isso eu encare a nossa frágil democracia com apreço, desejoso de seu fortalecimento ao longo do tempo. Por isso também tenho vontade de explicar ao senhor de ar aborrecido que veste como capa a bandeira de outro país enquanto desfila pela rua de minha cidade como um herói anacrônico: – Ei, senhor, pela primeira vez na história do Brasil uma tentativa de golpe não é perdoada, mas, sim, julgada. Não estamos no caminho certo? Tenho vontade de dizer isso, mas receio de que ele feche o tempo.

*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)

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